2 de maio de 2022

ausências




O domínio do fogo acompanhou o da linguagem. 

O calor da palavra, numa incandescente evolução verbal, cresceu a par da verticalidade num esqueleto cultivado a leite da mãe. Tudo na caverna ancestral do animal que fomos e somos. 

A capacidade de evocar as cinzas do passado e a previsão acerca da viagem dos fumos do futuro são um salto evolutivo feito fogo e palavra. Esse diálogo sobre o passado e o futuro dominado pela palavra dita e o fogo outrora novo, marca a verticalidade preguiçosa do macaco ou carro elétrico, se assim quisermos. Tanto se dá, na verdade.

E apesar de hoje celebrarmos o traço na sombra da parede calcária ao fim do trilho gravado no cansaço das ervas frescas, esquecemo-nos que o som, esse, existia há milénios.

Foi a água antes do fogo Não precisou de ser inventado porque sempre lá esteve.

Não nos fez descer da árvore mas eventualmente fez-nos voar...antes de caminhar.

Pena que o tempo esteja a arrefecer e o macaco, aos olhos dos incautos modernos, continue preguiçoso.

A imagem na caverna, fria e silenciosa, ecoa melodias que urgem resgatar aos olhos dos que elas hoje falam. 

E pouco importa a força motriz do carro de hoje. Fogo ou eletricidade, verbo ou adjetivo, ele sempre será som para os que verdadeiramente o conduzem.