25 de outubro de 2008

Um Brother Grito



Passei os dedos sobre a capa de Hunky Dory e lá estava o homem com olhar lisérgico e desesperado fitando minha parede. Era mais um homem que não podia me julgar. Ele não estava lá para isso. Mas tinha a sutil função de embalar minhas loucuras tristes e meus dias vazios com suas canções sobre astronautas. Os dias que foram e os que viriam. Mal sabia eu. Liguei a tv e entre notícias sobre o filme que Robert De Niro dirigira e mais um discurso de Bush na CNN, peguei no sono.


Acordei por volta das cinco da manhã levemente atormentada pelo sonho ruim. Tenho horror a sonhos desde pequena. Não consigo me lembrar de nenhum que tenha sido bom. Nunca sonhei que eu dirigia uma Mercedes com a cabeça pra fora, sentindo o vento da estrada bater na cara com Roadhouse Blues de trilha sonora. Sempre sonhei coisas ruins com pessoas desagradáveis. E quando surgia alguma pessoa querida no sonho, toda a história que a envolvia era sombria e desesperadora. A tv continuava ligada e passava o trailer de Maria Antonieta, de Sofia Copolla. Não tinha legenda e eu, ainda embriagada de sono, não conseguia entender inglês. Ouvi um barulho e percebi que vinha do meu celular. Mensagem de texto. O pai de uma amiga falecera. Àquela altura da noite e da vida, não poderia mesmo ser algo agradável.

Eram oito da manhã quando cheguei ao velório. Fui de jeans e camiseta preta. Minha roupa habitual, é verdade, mas pensei que a camiseta preta seria simbólica. Minha amiga estava calada, sem maquiagem alguma e completamente frágil. Abracei-a. E com minha boca grudada em seus cabelos, falei baixinho “Meus pêsames”. O lugar não era nada agradável e de tempo em tempo, sentia coisas estranhas correndo pelo meu corpo. Morte é mesmo um troço louco. Sentei em um banco de madeira que ficava embaixo de um coberto e acendi um cigarro. Pensei que, por educação talvez, eu deveria ir olhar o homem. O morto. Nem consegui terminar o cigarro. Joguei-o na grama e fui encarar o homem dentro do caixão. Ele estava bonito. Não estou sendo desrespeitosa, juro. O homem estava metido num terno bonito e seus cabelos estavam penteados. Pensei em coisas boas e, de alguma forma, tentei transmiti-las ao defunto. “É… Pior que essa vida aqui não pode existir…”

Cheguei em casa aturdida. Não me apetecia dormir, nem comer. Doía lembrar da minha amiga. Às vezes dá vontade de tomar o sofrimento dos outros. Tirar com a mão, roubar. “Me dá isso tudo que eu quero sentir”. Não sei, é louco. Ninguém alivia ninguém. Tem dor que não cura. Me drogar não cura a dor, trepar não cura a dor, encher a cara não cura a dor. Dores mundanas, as piores.

Coloquei Hunky Dory na vitrola. Não gosto de falar “toca discos”. Papai sempre falou “vitrola” e é “vitrola” que eu falo, e é na vitrola que eu toco meus discos. Ele, então, começou a me aliviar cantando The Bewlay Brothers. Fiquei de pé no meio da sala com os olhos fechados. Minha dor indo embora pra um lugar desconhecido. Os olhos fechados do morto na minha cabeça, o cabelo dela na minha boca, a vontade de sentir aquela dor, de curar. Curar loucamente uma dor que não era minha. Era dela e do mundo. Era dos olhos dele, um azul e um verde. Eram nossas vidas cruzadas, nossas mortes, nossos sonos, nossos olhos. Eu, ela, o morto, Bowie e a realidade que nos conectava enquanto The Bewlay Brothers tocava.


in último grito

20 de outubro de 2008

Bom Inverno !




A propósito da estação cavernosa

Há guitarras eléctricas e acústicas. Velhas e novas. E há, acima destas todas, as sabidas. São aquelas que mais do que se fazerem ouvir já escutaram muito. Absorvem o suor daquela sétima menor que demorou anos a automatizar. Transpiram a intensidade do Mi maior expulsando energia feita som. Elevaram-se quase a instrumento de sopro perante o Lá menor dedilhado, sem verter uma lágrima de seiva. A guitarra de Bon Iver é sabichona! Os intervalos, grandes ou subtis, são passos auditivos, caminhadas de movimento. Às vezes em botas cardadas outras em pé descalço.
As cicatrizes das guitarras sabidas são belas. Aliás, entenda-se, que a própria definição de cicatriz deveria ser bela. Não há identidade sem cicatrizes e não há guitarras sabidas sem identidade. A guitarra sabida não é espelho de virtuosismo ou conhecimento. Ela sabe que o movimento pode não ser continuum. Tem tanto de orgânica como a madeira que a compõe: velha e desgastada, por vezes mecanizada num contra-tempo cheio de contra-dições.
Ocasionalmente solta um gemido feito suspiro de como quem diz: “ fui parceira das tuas conquistas amorosas, companheira dos teus desgostos, bebedeira das tuas alegrias, alucinação das tuas viagens e cabide do teu alheamento…. Falo com propriedade (idade própria)”
Ao pó que pousa na guitarra sabida resta a consciência de uma aterragem insegura. Um destino de incerteza povoado pelo circo(lo) mágico. Uma mundo de malabarismos apalhaçados onde a vida certamente emita a arte ou a politica (cli-ché Guevara).


Eis um retrato desta guitarra em fase de maturidade…por um seu companheiro de estrada!

16 de outubro de 2008

RVCC PRÓstumo




...ou de como o balanço de competências pode ser um balançar entre o céu e o inferno.

2 de outubro de 2008

Música Infantil



Ser-se pai tem coisas estranhas (musicalmente falando). Desde uma estranha mania de andar a atirar paus aos gatos, como se estes fossem conhecidos pela sua capacidade de submissão à vontade humana, até abrir alas para o Noddy, alas de hospital porque o raio do boneco sofre de icterícia. Toda a figura triste se me afigura plausível neste cenário.
A mais brilhante é a melodia das galinhas e a mensagem a ela associada. Elas picam…fazem buraquinhos e ainda se dizem doidas! Ora doido fico eu...e a linha entre a loucura e a sanidade é ténue segundo os especialistas.
Como contributo de pai musicalmente angustiado coloco Kid Koala em som denominado Like Irregular Chickens do álbum Carpal Tunnel Syndrome.
Se o bicho (i.e., puto Carlos) se aproximar do meu portátil daqui a 10 dias sem gritar, alarvemente, TOTI, TOTI, TOTI….significa que este post atingiu os seus objectivos.