20 de outubro de 2008

Bom Inverno !




A propósito da estação cavernosa

Há guitarras eléctricas e acústicas. Velhas e novas. E há, acima destas todas, as sabidas. São aquelas que mais do que se fazerem ouvir já escutaram muito. Absorvem o suor daquela sétima menor que demorou anos a automatizar. Transpiram a intensidade do Mi maior expulsando energia feita som. Elevaram-se quase a instrumento de sopro perante o Lá menor dedilhado, sem verter uma lágrima de seiva. A guitarra de Bon Iver é sabichona! Os intervalos, grandes ou subtis, são passos auditivos, caminhadas de movimento. Às vezes em botas cardadas outras em pé descalço.
As cicatrizes das guitarras sabidas são belas. Aliás, entenda-se, que a própria definição de cicatriz deveria ser bela. Não há identidade sem cicatrizes e não há guitarras sabidas sem identidade. A guitarra sabida não é espelho de virtuosismo ou conhecimento. Ela sabe que o movimento pode não ser continuum. Tem tanto de orgânica como a madeira que a compõe: velha e desgastada, por vezes mecanizada num contra-tempo cheio de contra-dições.
Ocasionalmente solta um gemido feito suspiro de como quem diz: “ fui parceira das tuas conquistas amorosas, companheira dos teus desgostos, bebedeira das tuas alegrias, alucinação das tuas viagens e cabide do teu alheamento…. Falo com propriedade (idade própria)”
Ao pó que pousa na guitarra sabida resta a consciência de uma aterragem insegura. Um destino de incerteza povoado pelo circo(lo) mágico. Uma mundo de malabarismos apalhaçados onde a vida certamente emita a arte ou a politica (cli-ché Guevara).


Eis um retrato desta guitarra em fase de maturidade…por um seu companheiro de estrada!

Sem comentários: