15 de dezembro de 2013

beija flor !?

Crtl v / Ctrl c

o gozo e a transcendência gostam de virar costas um ao outro. Certo! Mas não me lixem com as vossas poesias: as melhores quecas são as difíceis. Dialéctica hegueliana e dinamismo freudiano.... o olho do cú! Na minha perspectiva, está claro.

14 de dezembro de 2013

Amigo cordeiro

Ó Lobo Antunes, já que te permites dizer foda-se, deixa-me que te diga: vai para o caralho. Não tenho nada contra ti, a tua pessoa, a tua escrita ou mesmo a tua doença. Mas podes ir passear com essa conversa para um canto? Retê-la como se de um pum se tratasse? Os doentes oncológicos não são corajosos ou despeitados. Não se comparam ao combatente da guerra colonial que foste (não sei em que circunstâncias porque não leio as tuas cartas feitas livros). Os doentes oncológicos sujeitam-se aos tratamentos que lhes são indicados porque não existe alternativa. Existem os estoicos e os pseudo coitadinhos. Mas todos eles sofrem porque lhes é exigido que sofram. Não é uma escolha pessoal. Logo não são heróis coisa nenhuma. Podes chamar corajoso ao enfermeiro, ao auxiliar... e mesmo ao médico que, por detrás da sua secretaria, define a estratégia de ataque ao bicho. Agora o doente é, na sua maioria, um infeliz que nada contribuiu para a sorte que lhe calhou. Aquele magricela que se aproxima de ti dizendo que este será o seu último abraço está a desempenhar um papel. Um pequeno teatro só para ti. Não é suposto que o tornes público. Ele não acredita na morte. Quanto muito pensa que a está a enganar. Quanto muito usa-te para ver se a engana. Há tanta merda para louvar na vida... e tu logo escolhes a inevitabilidade da morte. Esses teus “compadres” são tão cheios de defeitos como todos os outros. Tens pena que sejam puncionados a toda a hora ? Que sofram? Ora, porra! Olha à tua volta fora do hospital. O MUNDO ESTÁ REPLETO DE CANCROS. E engraçado é que os verdadeiros heróis, na sua grande maioria, são muito mais saudáveis que tu ou eu. O teu dom de fazer-me verter lágrimas é irritante. Estás a falar de ti... e tens toda a razão para o fazer. Mas não o faças em público! Daqui para a frente estás proibido de me fazer chorar... ou vou-te à trombra.

26 de novembro de 2013

5 de junho de 2013

Matar para ver a vida.... ou uma crónica ecomusical.

 

Face a uma doença recém adquirida diz-me a minha enorme amiga RT cada vez que me encontra: Então já te caíram as unhas ? 

Autoridade não lhe falta. Passou por uma coisa muito parecida e certamente observou espessas camadas de queratina a apodrecerem na ponta dos dedos de muita gente. A escorrerem viscosas e acinzentadas pelos pijamas hospitalares. 

Não obstante esta sua experiência há que dizer que RT diz muitos disparates. Daquele tipo que só os bons amigos sabem verbalizar. Estou certo que as minis que bebe pela manhã enquanto passa a ferro ajudam. Mas fico-lhe eternamente grato pelo sentimento de confiança e respeito que nutre pela minha pessoa o que lhe permite esta partilha. Acredita, por exemplo, que os seus (nossos) pequenos gestos podem contribuir para eliminar a fome no mundo; valida o poder do chá; os DVD´s de terapias orientais e ocidentais que nos transformam em seres mais capazes; a bendita mini entremeada pelo vapor de duas fronhas passadas a ferro; o ritmo pausado no isolamento de uma serra algarvia sem luz ou água. Enfim são só alguns dos disparates que a fazem ligar-me todas as semana a perguntar como passo...e a perguntar-me se ainda tenho as unhas no sítio. Isto sim é amizade a sério. E antes de mais este post é fundamentalmente para te dizer obrigada. A ti e, claro, ao nosso querido amigo PCS que teima em abster-se de passar a ferro enquanto saboreia uma mini (disparate completo). Tudo o resto serão balelas. 

As ditas unhas, minha amiga, claro que estão fortes e viçosas como seria de esperar. O disparate é que me inquieta ao ponto de olhar para elas, e pasme-se: fotografá-las. De seguida espeto com a queratina pixelizada na internet contrariando o meu antagonismo por uma exposição demasiado próxima. E o que vejo eu? Uma árvore ! Um corte transversal num tronco de uma árvore secular que permite contar os seus anéis e saber a sua idade. Surge um padrão que é interrompido por factores adversos ao crescimento: períodos frios, fogos ou pragas. Nestes períodos formaram-se anéis mais estreitos e densos que se distinguem dos restantes. Ao contrário de uma intervenção radical como é o corte transversal nas árvores – que terá que ser feito pela base do tronco para que os resultados sejam satisfatórios – e que leva à morte da dita, no ser humano uma intervenção semelhantes a esta denomina-se matar para ver a vida.... isso ou autópsia. Nada como uma autópsia para fazer um verdadeiro diagnóstico ao organismo. Certo que o paciente morre, mas por morrer uma árvore morre toda uma floresta? E há outras formas de matar para ver a vida para além da autópsia...como eu e a RT sabemos. 

Mas voltando à queratina: será que existe um fenómeno semelhante que possa ser observado nas minhas unhas? Isto, claro, antes que caiam. Ao partir do mesmo principio verifiquei uma marca (um semicírculo acinzentado) presente nas dez unhas. Achei que poderia determinar o período a que corresponderia esta marca identificando, assim, o evento desencadeador com recurso à minha agenda. Para tal debrucei-me sob uma distância que deverá ser calculada face ao eponíquio (a região entre a finalização da pele do dedo na face superior da unha e a porção proximal da unha – as coisas que se descobrem na wikipédia). Fazê-lo no sentido inverso seria contaminar a fórmula com inúmeras variáveis não controladas (tipo de corte da unha, lascas da mesma, capacidade de as roer, tipo de instrumento de corte utilizado, etc). 

Como vês, RT, o trabalho foi disparatado e sério, também. Só não deposito aqui a fórmula matemática criada porque não sei desenhar uma raiz quadrada num blog 

E que resultados surgiram de tão apurado e dedicado estudo matemático? Que evento se permitiu inscrever na ponta dos meus dedos com tamanho desplante? O dia da confirmação do diagnóstico da minha doença? A passagem pelo tenebroso túnel na Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital de São José? O inicio dos dolorosos e prolongados tratamentos ? Nada disso. O resultado apontou para 8 de Março de 2013. O preciso dia do lançamento do último álbum de estúdio de David Bowie: The Next Day. 

Qual Gaspar não questiono estudos disparatados (não confundir com conceito anteriormente dissecado) mesmo que desfasados da realidade. Assim olho para este álbum, primeiro, tentando perceber como foi parar, literalmente, às minhas mãos. Segundo consta os músicos que o gravaram não estavam autorizados, sequer, a informar a família mais próxima acerca do trabalho que estavam a desenvolver. Qual FBI, CIA ou KGB a máquina de relações públicas associada a Bowie consegue, após um interregno de 10 anos, anunciar um produto que caiu que nem uma bomba nos escaparates de imprensa especializada e generalista (vi a notícia em rodapé num dos canais generalistas em Portugal num noticiário em hora nobre). Isto acontece a 8 de Janeiro, dia em que o artista celebra o seu 66º aniversário. Estou certo que a marca foi parar às minhas unhas através de um processo sofisticado e altamente tecnológico inscrito na agenda desta campanha de marketing. Aguardo receber mensagens de outros fãs e fotos de marcas semelhantes para provar a minha teoria. 

Qual corte transversal deferido à mais velha oliveira da planície alentejana, Next Day indica piscas mais para o passado do que para o futuro. Nele uivam cães de diamante, bailam sapatos vermelhos e circulam hordas de moods na Londres de há 50 anos. 

 A única balada do disco remete para a trilogia berlinense e, logo, grassam saudades de uma ausente participação de Brian Eno. 

 Earl Slick é Rei neste tabuleiro rolante do passado. O homem que se não tem tatuado “Fui eu que substitui Mick Ronson em 1974” na nádega esquerda, é burro. 

 Já por seu lado a Torre negra (que não me parece de marfim), Gail Ann Dorsey, cria linhas de baixo pouco surpreendentes e que muito se assemelham à, em tempos, suposta homossexualidade de Mick Jager: duvidosas, portanto. Claro que a sua presença contribui para a névoa auditiva dos graves. Qualquer eminência em relações públicas vos confirmará este fenómeno. 

 Temos um Bispo que é uma peça que merece destaque neste tabuleiro. Steve Elson, saxofonista, dá brilho fundamentalmente a duas músicas muito bem conseguidas: “Dirty Boys” e “Boss of me” 

Já a Rainha, no alto dos seus 66 anos, move-se em todas as quadrículas do tabuleiro. Chega a ser provocativa e vê um vídeo censurado pelo youtube. Claro que ao fim de 24 horas a empresa retrata-se e volta a disponibilizar a obra prima. 

 Neste tronco os eventos que se demarcam do padrão são, quase todos eles, pouco optimistas: a 2º guerra mundial em “I´d rather be high” e assassínios em escolas em “Valentine´s day” são disso exemplo. Os fantasmas de Londres medieval espreitam também em enforcamentos e mortes. 

Em termos do corte vê-se que o machado foi deixado de lado. A produção do disco, pelo mensageiro terreno e eminência profissional, Tony Visconti, é demasiado limpa. Estas faixa a serem gravadas ao vivo ganhariam uma rudeza que só as engrandecia. Pena que Visconti tenha olhado mais para os seus computadores do que para os músicos. Talvez seja estranha junção velhice/tecnologia a fazer das suas. A descrição de como a canção Heroes foi tecnicamente gravada deveria ser um manual para qualquer produtor. Pena que o próprio que a realizou tenha esquecido estas experiências. 

Enquanto mensageiro do alienígena, Tony Visconti, afirma que foram gravadas 29 músicas em estúdio. Eventualmente verão a luz do dia num futuro próximo. Logo poderemos acreditar que a ser este o corte derradeiro na rainha glam, ainda teremos mais elementos para o diagnóstico final da doença do paciente. 

Em termos gerais, afastadas as diarreias dos anos 80, algum seguidismo pontual nos 90, a nostalgia precoce dos anos 00, Bowie cumpre a profecia de Space Oddity: a verdadeira viagem é interior. Só por isso e porque este disco é um grande disparate, vale a pena comprá-lo. Se for em vinil melhor.... com o tempo a batata frita talvez faça aquele gostinho de que Tony Visconti nos privou: a sujidade. 

Agora vou cortar as unhas!