14 de dezembro de 2013

Amigo cordeiro

Ó Lobo Antunes, já que te permites dizer foda-se, deixa-me que te diga: vai para o caralho. Não tenho nada contra ti, a tua pessoa, a tua escrita ou mesmo a tua doença. Mas podes ir passear com essa conversa para um canto? Retê-la como se de um pum se tratasse? Os doentes oncológicos não são corajosos ou despeitados. Não se comparam ao combatente da guerra colonial que foste (não sei em que circunstâncias porque não leio as tuas cartas feitas livros). Os doentes oncológicos sujeitam-se aos tratamentos que lhes são indicados porque não existe alternativa. Existem os estoicos e os pseudo coitadinhos. Mas todos eles sofrem porque lhes é exigido que sofram. Não é uma escolha pessoal. Logo não são heróis coisa nenhuma. Podes chamar corajoso ao enfermeiro, ao auxiliar... e mesmo ao médico que, por detrás da sua secretaria, define a estratégia de ataque ao bicho. Agora o doente é, na sua maioria, um infeliz que nada contribuiu para a sorte que lhe calhou. Aquele magricela que se aproxima de ti dizendo que este será o seu último abraço está a desempenhar um papel. Um pequeno teatro só para ti. Não é suposto que o tornes público. Ele não acredita na morte. Quanto muito pensa que a está a enganar. Quanto muito usa-te para ver se a engana. Há tanta merda para louvar na vida... e tu logo escolhes a inevitabilidade da morte. Esses teus “compadres” são tão cheios de defeitos como todos os outros. Tens pena que sejam puncionados a toda a hora ? Que sofram? Ora, porra! Olha à tua volta fora do hospital. O MUNDO ESTÁ REPLETO DE CANCROS. E engraçado é que os verdadeiros heróis, na sua grande maioria, são muito mais saudáveis que tu ou eu. O teu dom de fazer-me verter lágrimas é irritante. Estás a falar de ti... e tens toda a razão para o fazer. Mas não o faças em público! Daqui para a frente estás proibido de me fazer chorar... ou vou-te à trombra.

1 comentário:

Raquel disse...

Porque não lhe envias...? Se calhar até gostava...é imprevisível. Mas podias fazê-lo