20 de outubro de 2009
Das heranças…
Talvez porque sempre que a ela retorno cheiro em mim o odor daquele casaco de camurça, herança de um avô querido. Cheiro o tempo em que ele me servia, o tempo em que eu o servia.
E porque, apesar de tudo, o seu impacto é tal, continuo a vesti-lo sem o vestir, continuo a ser Rei do mediterrânico autocarro que me levava da escola a casa.
Este violoncelo de adeus continua a elevar-se ao som do motor que aquecia o longo banco traseiro. Nele observava, ainda, o jardim do Campo Grande onde mais tarde me deitaria em braços alheios. Já sem o velho Walkman com o som de quem se gosta que abala…mas sempre com aquele casaco castanho e sem quem abalou.
Braços idos e vindos os que soavam nesse grande campo da juventude.
Frases que ficam dedilhadas em todos os futuros braços em que me deitarei.
Cheiros de arcos nos atritos de violinos que sem roçar planam nas cordas do meu futuro.
Diálogos atonais interrompidos por um tempo sem data.
Quem abala sempre algo deixa: uma música de eterno retorno!
E, quando abalar, que deixarei?
Um casaco para quem frio tenha e uma banda sonora que, hoje, é toda minha.
Fumo e cinza vão com o vento. Tudo o resto fica.
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