
Passei os dedos sobre a capa de Hunky Dory e lá estava o homem com olhar lisérgico e desesperado fitando minha parede. Era mais um homem que não podia me julgar. Ele não estava lá para isso. Mas tinha a sutil função de embalar minhas loucuras tristes e meus dias vazios com suas canções sobre astronautas. Os dias que foram e os que viriam. Mal sabia eu. Liguei a tv e entre notícias sobre o filme que Robert De Niro dirigira e mais um discurso de Bush na CNN, peguei no sono.
Acordei por volta das cinco da manhã levemente atormentada pelo sonho ruim. Tenho horror a sonhos desde pequena. Não consigo me lembrar de nenhum que tenha sido bom. Nunca sonhei que eu dirigia uma Mercedes com a cabeça pra fora, sentindo o vento da estrada bater na cara com Roadhouse Blues de trilha sonora. Sempre sonhei coisas ruins com pessoas desagradáveis. E quando surgia alguma pessoa querida no sonho, toda a história que a envolvia era sombria e desesperadora. A tv continuava ligada e passava o trailer de Maria Antonieta, de Sofia Copolla. Não tinha legenda e eu, ainda embriagada de sono, não conseguia entender inglês. Ouvi um barulho e percebi que vinha do meu celular. Mensagem de texto. O pai de uma amiga falecera. Àquela altura da noite e da vida, não poderia mesmo ser algo agradável.
Eram oito da manhã quando cheguei ao velório. Fui de jeans e camiseta preta. Minha roupa habitual, é verdade, mas pensei que a camiseta preta seria simbólica. Minha amiga estava calada, sem maquiagem alguma e completamente frágil. Abracei-a. E com minha boca grudada em seus cabelos, falei baixinho “Meus pêsames”. O lugar não era nada agradável e de tempo em tempo, sentia coisas estranhas correndo pelo meu corpo. Morte é mesmo um troço louco. Sentei em um banco de madeira que ficava embaixo de um coberto e acendi um cigarro. Pensei que, por educação talvez, eu deveria ir olhar o homem. O morto. Nem consegui terminar o cigarro. Joguei-o na grama e fui encarar o homem dentro do caixão. Ele estava bonito. Não estou sendo desrespeitosa, juro. O homem estava metido num terno bonito e seus cabelos estavam penteados. Pensei em coisas boas e, de alguma forma, tentei transmiti-las ao defunto. “É… Pior que essa vida aqui não pode existir…”
Cheguei em casa aturdida. Não me apetecia dormir, nem comer. Doía lembrar da minha amiga. Às vezes dá vontade de tomar o sofrimento dos outros. Tirar com a mão, roubar. “Me dá isso tudo que eu quero sentir”. Não sei, é louco. Ninguém alivia ninguém. Tem dor que não cura. Me drogar não cura a dor, trepar não cura a dor, encher a cara não cura a dor. Dores mundanas, as piores.
Coloquei Hunky Dory na vitrola. Não gosto de falar “toca discos”. Papai sempre falou “vitrola” e é “vitrola” que eu falo, e é na vitrola que eu toco meus discos. Ele, então, começou a me aliviar cantando The Bewlay Brothers. Fiquei de pé no meio da sala com os olhos fechados. Minha dor indo embora pra um lugar desconhecido. Os olhos fechados do morto na minha cabeça, o cabelo dela na minha boca, a vontade de sentir aquela dor, de curar. Curar loucamente uma dor que não era minha. Era dela e do mundo. Era dos olhos dele, um azul e um verde. Eram nossas vidas cruzadas, nossas mortes, nossos sonos, nossos olhos. Eu, ela, o morto, Bowie e a realidade que nos conectava enquanto The Bewlay Brothers tocava.
in último grito




